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Eleição e Livre-arbítrio – Uma objeção sobre a declaração doutrinária da Convenção Batista Brasileira

Eleição e Livre-arbítrio – Uma objeção sobre a declaração doutrinária da Convenção Batista Brasileira

Resolvi fazer um breve estudo, bem simples mesmo, sobre a Eleição, segundo a Declaração Doutrinária da Convenção Batista Brasileira, apenas para fazer uma objeção sobre uma de suas afirmações. O objetivo não é esgotar o tema, nem me aprofundar demasiadamente no assunto, portanto serei sucinto. Até porque, o tema é amplamente debatido no meio cristão. Caso queiram trazer mais argumentos para ampliar o estudo, fiquem a vontade para usar os comentários. Mas aqui, a minha proposta é apenas analisar as bases bíblicas utilizadas pela Convenção Batista Brasileira, no que concerne ao assunto Eleição e Livre-arbítrio.

Consta assim no item VI da declaração doutrinária (confira o original aqui: http://www.batistas.com/institucional/declaracao-doutrinaria?showall=&start=5)

VI- Eleição

Eleição é a escolha feita por Deus, em Cristo, desde a eternidade, de pessoas para a vida eterna, não por qualquer mérito, mas segundo a riqueza da sua graça.1 Antes da criação do mundo, Deus, no exercício da sua soberania divina e à luz de sua presciência de todas as coisas, elegeu, chamou, predestinou, justificou e glorificou aqueles que, no correr dos tempos, aceitariam livremente o dom da salvação.2 Ainda que baseada na soberania de Deus, essa eleição está em perfeita consonância com o livre-arbítrio de cada um e de todos os homens.3 A salvação do crente é eterna. Os salvos perseveram em Cristo e estão guardados pelo poder de Deus.4 Nenhuma força ou circunstância tem poder para separar o crente do amor de Deus em Cristo Jesus.5 O novo nascimento, o perdão, a justificação, a adoção como filhos de Deus, a eleição e o dom do Espírito Santo asseguram aos salvos a permanência na graça da salvação.6

1 Gn 12.1-3; Ex 19.5,6; Ez 36.22,23,32; 1Pe 1.2; Rm 9.22-24; 1Ts 1.4
2 Rm 8.28-30; Ef 1.3-14; 2Ts 2.13,14
3 Dt 30.15-20; Jo 15.16; Rm 8.35-39; 1Pe 5.10
4 Jo 3.16,36; Jo 10.28,29; 1Jo 2.19
5 Mt 24.13; Rm 8.35-39
6 Jo 10.28; Rm 8.35-39; Jd 24

Vamos nos ater apenas ao que afirma o item 3, já que cremos não haver divergência quanto aos demais itens citados, embora, na nossa opinião, contradizem o item 3. Diz assim o referido item:

“Ainda que baseada na soberania de Deus, essa eleição está em perfeita consonância com o livre-arbítrio de cada um e de todos os homens.”.

De acordo com a convenção, portanto, a eleição de Deus, baseada na sua soberania, está em perfeita consonância com o livre-arbítrio de cada um. Notem que não há nenhuma explicação para essa afirmação. Nenhuma descrição de como isso se coaduna. E é justamente esse silêncio que me motivou a escrever este texto. Por outro lado, para fundamentar tal afirmação, a convenção batista trás como referências bíblicas os textos de Dt 30.15-20; Jo 15.16; Rm 8.35-39; 1Pe 5.10. Vejamos o que esses textos afirmam (inclusive em seus contextos):

PRIMEIRO TEXTO: “Hoje invoco os céus e a terra como testemunhas contra vocês, de que coloquei diante de vocês a vida e a morte, a bênção e a maldição. Agora escolham a vida, para que vocês e os seus filhos vivam, e para que vocês amem o Senhor, o seu Deus, ouçam a sua voz e se apeguem firmemente a ele. Pois o Senhor é a sua vida, e ele dará a vocês muitos anos na terra que jurou dar aos seus antepassados, Abraão, Isaque e Jacó”.  Dt 30.15-20

Deus está inegavelmente colocando diante do homem uma escolha. A pergunta é: o homem natural, sem vida, morto em pecados e delitos, pode, por sua livre escolha, responder positivamente ao mandamento de Deus, e escolher a vida? A resposta Bíblica me parece ser um sonoro NÃO! O que mais chama a atenção é que a convenção escolheu essa passagem, mas não fez referência a versículos presentes no mesmo contexto que dizem: “O Senhor, o seu Deus, dará um coração fiel a vocês e aos seus descendentes, para que o amem de todo o coração e de toda a alma e vivam.”… e ainda…  “Vocês obedecerão de novo ao Senhor e seguirão todos os seus mandamentos que dou a vocês hoje.”… e também…  “Nada disso! A palavra está bem próxima de vocês; está em sua boca e em seu coração; por isso vocês poderão obedecer-lhe”  Dt 30:6, 8 e 14. Ou seja, sim, Deus coloca sobre o homem uma escolha. Mas ele só pode obedecer se a Palavra de Deus estiver em sua boca e em seu coração. Um coração fiel que, aliás, é Deus quem dá. Isso se coaduna com o que Ele disse que faria por meio do profeta Ezequiel (36:26), quando promete a restauração do seu povo. O homem, morto, precisa ser restaurado, vivificado, precisa de um novo coração, para então obedecer a Deus.

SEGUNDO TEXTO: “Vocês não me escolheram, mas eu os escolhi para irem e darem fruto, fruto que permaneça, a fim de que o Pai conceda a vocês o que pedirem em meu nome.” Jo 5:16.

Não há o que questionar. Só escolhemos a Deus, porque ele nos escolheu primeiro. Em perfeita harmonia com o PRIMEIRO TEXTO. Só obedecemos, se Deus nos mudar primeiro. E o fruto que produzimos é o que confirma nossa obediência, pois é para isso que Ele nos escolheu.

TERCEIRO TEXTO: “Quem nos separará do amor de Cristo? Será tribulação, ou angústia, ou perseguição, ou fome, ou nudez, ou perigo, ou espada? Como está escrito: “Por amor de ti enfrentamos a morte todos os dias; somos considerados como ovelhas destinadas ao matadouro”. Mas em todas estas coisas somos mais que vencedores, por meio daquele que nos amou. Pois estou convencido de que nem morte nem vida, nem anjos nem demônios, nem o presente nem o futuro, nem quaisquer poderes, nem altura nem profundidade, nem qualquer outra coisa na criação será capaz de nos separar do amor de Deus que está em Cristo Jesus, nosso Senhor”. Rm 8.35-39

Sem objeções. O texto complementa o SEGUNDO TEXTO, ao afirmar que Deus nos amou primeiro… e é por meio daquele que nos amou que podemos, agora sim, enfrentar tribulação, angústia, perseguição, fome, nudez, perigo e até a morte… pois nada pode nos separar do amor… de Deus.

QUARTO TEXTO: “O Deus de toda a graça, que os chamou para a sua glória eterna em Cristo Jesus, depois de terem sofrido por pouco tempo, os restaurará, os confirmará, os fortalecerá e os porá sobre firmes alicerces.” 1Pe 5.10

Perfeito. O Deus que nos chama, é quem nos restaurará (nos vivificando e nos dando um novo coração – PRIMEIRO TEXTO), é quem nos confirmará (SEGUNDO TEXTO), é quem nos fortalecerá (TERCEIRO TEXTO) e nos porá em firmes alicerces (ou seja, num lugar seguro – Em Cristo). Justamente por isso que o texto segue dizendo: “A ele seja o poder para todo o sempre. Amém.”.

Portanto, podemos concluir que o Poder e a Glória pela salvação do homem é de Deus. Deus elege “…em Cristo, desde a eternidade, pessoas para a vida eterna, não por qualquer mérito, mas segundo a riqueza da sua graça” (item 1 da declaração). Porém, conforme os mesmos textos utilizados pela convenção (juntamente com seus contextos) somente é possível ao homem responder positivamente a Deus, obedecendo seus estatutos, após Deus, que o elegeu para salvação, restaurar o seu coração. Logo, a contrário do que afirma a convenção (embora sem explicar como) essa eleição (soberana de Deus) NÃO está em perfeita consonância com o livre-arbítrio do homem. O qual, diga-se de passagem, não é livre, pois o arbítrio do homem é escravo do pecado, conforme afirme a própria declaração doutrinária batista em seu item IV, vejamos:

IV- O Pecado

No princípio o homem vivia em estado de inocência e mantinha perfeita comunhão com Deus.1 Mas, cedendo à tentação de Satanás, num ato livre de desobediência contra seu Criador, o homem caiu no pecado e assim perdeu a comunhão com Deus e dele ficou separado.2 Em consequência da queda de nossos primeiros pais, todos somos, por natureza, pecadores e inclinados à prática do mal.3 Todo pecado é cometido contra Deus, sua pessoa, sua vontade e sua lei.4 Mas o mal praticado pelo homem atinge também o seu próximo.5 O pecado maior consiste em não crer na pessoa de Jesus Cristo, o Filho de Deus, como salvador pessoal.6 Como resultado do pecado, da incredulidade e da desobediência do homem contra Deus, ele está sujeito à morte e à condenação eterna, além de se tornar inimigo do próximo e da própria criação de Deus.7 Separado de Deus, o homem é absolutamente incapaz de salvar-se a si mesmo e assim depende da graça de Deus para ser salvo.8

1 Gn 2.15-17; 3.8-10; Ec 7.29
2 Gn 3; Rm 5.12-19; Ef 2.12; Rm 3.23
3 Gn 3.12; Rm 5.12; Sl 51.5;  Is 53.6; Jr 17.5; Rm 1.18-27; 3.10-19; 7.14-25; Gl 3.22; Ef 2.1-3
4 Sl 51.4; Mt 6.14; Rm 8.7-22
5 Mt 6.14,15; 18.21-35; 1Co 8.12; Tg 5.16
6 Jo 3.36; 16.9; 1Jo 5.10-12
7 Rm 5.12-19; 6.23; Ef 2.5; Gn 3.18; Rm 8.22
8 Rm 3.20; Gl 3.10,11; Ef 2.8,9

Destaco: “Separado de Deus, o homem é absolutamente incapaz de salvar-se a si mesmo e assim depende da graça de Deus para ser salvo.”… item 8 acima.

Assim, com base no presente estudo, entendo que a Convenção Batista Brasileira deveria rever sua declaração de fé, seja reconhecendo que o livre-arbítrio do homem foi perdido com sua queda, e que somente pela graça, Deus o habilita a livremente querer e fazer aquilo que é espiritualmente bom, voltando-se, assim, às origens batistas (vide Confissão Batista de Fé de Londres, de 1689), ou, na pior das hipóteses, explicando biblicamente como a soberania de Deus na eleição se alinha a vontade livre do homem não regenerado, o que a Convenção atualmente não faz.

Kerwin Muriel Hirt Mayer
Soli Deo gloria

 

 

 

Amovocês

Amovocês é uma declaração de amor, que tem por objetivo mostrar ao mundo que Deus nos ama e que não deseja que ninguém se perca, mas que todos venham a seguir a Sua vontade.

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